quinta-feira, 3 de março de 2011

Motivos para desistir






Diário de um Instrutor de Voo... (001)
                      
MOTIVOS PARA DESISTIR...

Prezado Custódio,
Bom Dia.

          Li seu depoimento sobre o “II Encontro” que como sempre é merecedor de estar no nosso espaço. Espaço este que é para todos e para que o que for lido nos remeta à nossa vida que está ficando para traz, nossos sonhos vividos ou por viver.
          Sua explicação sobre não ter feito uma Faculdade é oportuna e às vezes me faço tal questionamento. Sem dúvida, ter outro curso, se possível Universitário seria maravilhoso, ajudaria ainda mais a sua vida e os que estão em volta. Mas sem sombra de dúvidas, você e muitos outros que assim não o fizeram, são merecedores de qualquer diploma.
          Eu, por exemplo, quando na EMBRAER, resolvi fazer um curso superior por achar que seria possível e teria a noite para fazê-lo, ou melhor, lá eu cumpria horário das 07:00h às l7:40h e uma Faculdade iria somar os meus conhecimento. Comecei a Fazer Ciências Econômicas porque Engenharia, que seria o ideal por estar na EMBRAER, temia que fosse muito puxado e não pudesse acompanhar. Paguei para não estudar por um bom tempo, devido aos voos nos finais de semana, à noite, etc. A Produção de aeronaves estava sempre atrasada o que exigia trabalhar fora do horário normal. Tranquei o Curso e nunca mais pude voltar.
          Antes, já havia terminado o segundo grau, resolvi fazer o Curso Técnico de Arquitetura que hoje é conhecido como de Edificações. Que também tranquei no último ano, mesmo com todos os meus professores pedindo para não fazê-lo. Tive que optar por vir a São Paulo para fazer o Curso de Piloto Agrícola.
          E assim a vida acontece, nos envolvendo e nos permitindo fazer coisas e tendo que abrir mão de outras. Mas sem dúvidas fazer aquilo que se gosta é o grande segredo.
          Quando tinha 10 anos (1959) vi pela primeira vez um avião de verdade, voando livre e solto nos ares. Antes só os via em revistas. Era o Cessna, não sei o modelo, do então Governador de Pernambuco Cid Sampaio, cuja fazenda fazia divisa com a do meu avo. Corri por causa do barulho e perguntei a este de quem seria o tal avião. Lembro até hoje a resposta em alto e bom som: É o Teco-Teco do Dr. Cid Sampaio. De imediato, na bucha outra pergunta, onde ele vai parar. No campo de pouso e deu o nome da fazenda do então Dr. Cid Sampaio. Não tive dúvidas, peguei um facão coloquei na cintura e lá fui eu ver a tal maravilha. Era longe, era distante a tal fazenda onde se localiza a pista de pouso. Mas, maior que meu cansaço fora a decepção de não encontrar a tal máquina, lá. O Caseiro me informara que ele deixou o pessoal e voltara à Recife.
          Sonhei por noites, muitas noites imaginando como seria o tal Teco-Teco. Eis que um dia o Tal Cid Sampaio resolve oferecer a meu pai um cargo ligado diretamente a ele o Governador. Meu pai tinha um Cartório em São Joaquim do Monte, e se desfez deste que foi o seu grande e único erro na vida, para mudar para Recife. Como dono de Cartório (Escrivão e Tabelião) meu pai fizera muitas amizades e se tornara chefe político e isto interessava ao então Governador. O tal cargo dava ao meu pai o direito de entrar em qualquer repartição do Estado e fazer uma auditoria sem prévio aviso. Era chamado de governadozinho, tal era a importância da função. Tinha carro com motorista à disposição e respondia diretamente a ele , o Governador.
          Mas, por fim fomos morar em Recife e eis que o bairro escolhido por meu pai fora a Embiribeira. Os aviões passavam por sobre nossa casa. O menino ganhara a sorte grande, pois não havia loto naquela época. Na primeira oportunidade lá estava eu na cabeceira da pista a observar os pousos e decolagens. Os Constellation, meu Deus eram as coisas mais lindas e perfeitas no mundo. Se não queimei, ou melhor, torrei no sol foi porque Deus existe e assim não o quis. Daqueles dias em diante podia brincar de qualquer coisa com os outros meninos. Mas em casa, quando sozinho, meus aviões de madeira, comprados na feira ou onde fosse, estavam lá a minha espera, eram meus brinquedos favoritos.
          O menino cresceu o tempo passou e a vontade de voar, em minha cabeça eu queria voar como passageiro, jamais se desgrudou um único momento. Eis que o tão sonhado desejo um dia recebe a ajuda dos Deuses, eu estudava em um colégio de Padres, então só pode ter sido ajuda deles. A FAB ofereceu ao Colégio Salesiano e a outros, um número de assentos para um voo grátis sobre o Recife na semana da asa. Entrei em desespero, não conseguira se quer chegar próximo ao primeiro avião que havia visto in locu, como conseguiria entrar em um, também na primeira vez. O Padre José, meu professor de Religião, teve a missão mais árdua de sua vida naquela semana, conseguir que eu fosse um dos escolhidos. Tinha que apelar para um Padre já que só Deus poderia me ajudar em tal situação. Eis que o porta voz fora ouvido e fui escolhido, não quis eu mesmo arriscar com tal pedido. Só nas minhas orações!
          Quem dormia, ou pelo menos quem demorava a dormir a espera do tal voo? Foi uma angustia até a chegada da tão esperada data. Ficava a imaginar como seria lá dentro do avião, uma vez que meu pai fora ao Rio de Janeiro de Constellation e o descrevera para mim nos mínimos detalhes. Imaginava que seria igual ou parecido.
          No dia do voo, todos os escolhidos estavam presentes, nos apresentaram a aeronave mostrando tudo externamente. Mas, quando entrei no C130-Hércules fiquei decepcionado com a simplicidade encontrada. Não era como o Constellation de meus pensamentos. Mas estava lá e era um voo. Abordo, os militares encarregados das orientações faziam suas recomendações, etc.. A partida dos motores soou como algo estranho esperava coisa diferente sem saber o que. O taxi pareceu-me lento demais. A pista de Recife era de concreto e a aeronave no taxi fazia aquele barulho dos pneus cruzando as emendas entre as placas de concreto. Na decolagem, o barulho só aumentou de freqüência, passara a ser mais rápido, mas mesmo assim decepcionante. Esperava coisa diferente, mas, sem saber o que seria, achava que no mínimo deveria ser mais veloz, era uma avião! Aí me dei conta, mal acabamos de sair do chão, lentamente como eu achava, ao olhar para fora já estava sobre Olinda. Minha cabeça diz: É, até que foi rápido chegar aqui, isto claro comparado com o ir de carro. Voltamos após o sobre-voo e fiquei a pensar...
          Mais uma vez o tempo passa e o jovem, então com 18 anos se alista na Base Aérea do Recife pensando em seguir a vida Militar e aí se inclui a aviação. Não passei no exame Médico, “PÉ CHATO”, acredite se quiser. Não pude seguir em frente e a alegação médica era que, quem tem pé chato não agüenta muitas horas em pé, etc. Se quisesse ir parta o Exército até quer poderia dar certo. Poderia escolher entre arriscar ou receber a Segunda Classe (isento em tempos de Paz). Preferi a isenção! Achei ali, que o mundo acabara e por não ter condições financeiras para fazer aviação paga, desisti de meus sonhos por cinco anos. Até que em 1970 resolvi fazer a todo o custo, fosse qual fosse, o Curso de Piloto Privado, apenas, sem querer sonhar com o seguir em frente. Faria o Privado e se as coisas acontecessem a mais, teriam que ser de modo normal, sem pressões. Antes, neste espaço de tempo, trabalhei onde deu e olha, foi aonde deu mesmo. Trabalhei como Frentista de Posto de Gasolina, não foi meu primeiro emprego porque já havia trabalhado com meu pai no escritório dele de Contabilidade antes dele vender, trabalhei como Almoxarife no Pronto Socorro do Recife, fui vendedor de produtos de limpeza e por último motorista de Taxi, que foi uma decisão tomada para realmente poder pagar o Curso de Piloto Privado. Economizei o que pude para poder ao menos começar. Como taxista foi possível, não só fazer o Curso como fazer as demais horas.
          Lembro-me do primeiro dia em que cheguei ao Aeroclube de Pernambuco, no Encanta Moça, como era chamado, solicitei explicações sobre o Curso e quando me pediram para fazer a inscrição achei melhor fazer um voo primeiro para ver se iria gostar. Fui apresentado ao Cmt. Tomaz, que foi voar na Transbrasil,  hoje não sei onde se encontra, e fomos para o PT-GXG. Iniciou-se a partida do PT-GXG, o taxi, a decolagem e em voo, quando chegamos á área de treinamento, a 2000 pés ele comandou um parafuso. Um atrás do outro, subia e comandava parafuso. Até que, não agüentando, avisei: VOU VOMITAR. Não deu outra, levou a maior vomitada no peito, mesmo após parar a manobra, pedir calma avisar que já estava  voltando, etc., não deu!
          Imaginem a cena, o parafuso sendo comandado, eu agarrando no Santo Antônio e vendo o mundo girar pela primeira vez. O Tomaz gritando pra soltar e eu nem ligava, não havia ninguém que me fizesse soltá-lo, até que ele parou e eu vomitei. Foi muito legal a vomitada, também!
          Motivo para desistir da aviação, naquele voo, em alguns outros e até quando precisei avisar a um dos funcionários que teria que limpar o avião, tivera. Juro, quis fazer a limpeza, mas seu Ernesto, um dos mecânicos que cuidava das aeronaves, não aceitou a ajuda.
          Já devidamente inscrito no Aeroclube de Pernambuco-Recife matrícula nº 555-A de 17/04/70 e com a Licença de Aluno em Instrução nº 263/07/71 assinada pelo então Maj. Brigdeiro Faria Lima, fui, no segundo voo, orientado pelo pessoal do aeroclube a fazê-lo com o Cmt. Nestor Teodomiro da Silva, para evitar problemas como o vomitar novamente. Mas não deu outra, no taxi já comecei a ficar estranho, mesmo assim não falei nada e continuei. Durante o voo, as manobras logo me deixaram enjoado. Pedi para voltar, mas não deu tempo e vomitei novamente. Em solo, o Cmt. Nestor procurou conversar e me orientou a não comer muito para o próximo voo, principalmente nas horas que antecedessem o treinamento. Não comi nada e não adiantou, ocorreram os mesmo sintoma,e vomitei um treco verde (deve ser biles). Pensei em tomar remédio contra enjoo, mas fui desencorajado pelo Cmt. Nestor. Melhor dizendo, fui proibido de fazê-lo. A paciência dele é que me curou, se aquilo era uma doença, assim dizendo. Bem, todo voo, quando a indisposição começava, avisava a ele e tratávamos de parar qualquer manobra e até mesmo voltar se fosse o caso. Assim os sintomas desapareceram e pude continuar tranquilamente.
           Com a paciência do meu guru, Cmt. Nestor, tornei-me piloto privado em 20/09/73 licença nº 18678, sete dias após meu aniversário. Dei este presente a mim mesmo. Presente este que modificou minha vida. Tomei gosto pela aviação, vi que vomitar seria a chave para o sucesso e em 25/11/74 já me tornara Piloto Comercial, checado pelo então Cmt. Gualda Moreno (EMBRAER), no PT-DFJ, devidamente autorizado pelo Julinho DAC/RJ, decolando da Fazenda Maristela.
          Como foi esta virada em minha vida. Bem, vindo a São Paulo em 1974 para fazer o Curso de Piloto Agrícola, que não foi possível porque possuía a licença teórica de PC/IPE, as horas necessárias, mas não havia feito o cheque ainda, fui dispensado do Curso Agrícola, voltando depois onde conclui o 9º CAVAG em Iperó-Sorocaba.  Este é um outro capítulo da Faculdade da Vida e da Aviação. Não pense que foi fácil fazê-la, não foi! Porém, como tudo na vida exige esforços, sacrifícios , estes tornam-se parte corriqueira e simples do nosso dia-a-dia.
          Se não fiz outros Cursos, não ligados a aviação, tal como uma Faculdade, fiz, porém, de minha vida um voo, de meus vôos a felicidade de viver e sempre feliz fiz de meus dias e amizades a minha faculdade onde certamente Nestor Teodomira da Silva, Cap. Gurgel, Apolo Seixas Doca, Tomaz, Gualda, você, Mário, um eterno amigo a quem tenho um profundo respeito, o Sr. Luiz Ribeiro, e todos os outros que poderia aqui citar, são meus colegas de carteira nesta Faculdade por onde voam os aviadores, a Faculdade da Vida.
          Ser um aviador, independentemente de usar o voo como profissão, é acima de tudo um ato de amor e de coragem. O avião foi feito para cair, mas nós o mantemos lá, no céu,  seguro por nossas convicções e paixões. Até aprendemos tudo sobre ele, exatamente para ajudá-lo quando precisar. Nosso próprio ego nos diz, não tenho asas, mas Santos Dumont me deu esta (avião) e vou usá-la pois voar é mais que sonhar como infinito e o impossível,é  coisa que aviadores conhece e transforma em realidade. E o infinito, para nós, é logo ali!
Um Abraço,
Andrade, M. J.
 
 Obs: Nestor Teodomiro da Silva, Apolo Seixas Doca, Cap. Gurgel foram meus instrutores de voo no Aeroclube de Pernambuco. O Tamaz e Doca foram para Transbrasil na época.
O Gualda foi o responsável por me tornar Instrutor em Taubaté, meu checador  um grande amigo e colega de trabalho na EMBRAER. Os outros nem preciso mencionar, são mais do que aviadores, são amigos!

MJA. (Marcus José de Andrade/2008)

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